29 de outubro de 2026: Sabores do trabalho transatlântico: sorveteiros ítalo-brasileiros na Alemanha
- Palestrantes
- Diane Portugueis Universidade Metodista de São Paulo (UMESP) Stéphanie Mercier Bayerischer Rundfunk (BR)
- Horário
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- 17 h · CET
- 13 h · AR/BR/CL
- 12 h · BO/VE
- 11 h · CO
- 10 h · MX
- Idioma
- Apresentação em português; debate em português e espanhol
Formulário de inscrição (formulário em outra página)Acesso à sessão (Zoom), 29 de outubro de 2026 (site externo)
Biografias
Diane Portugueis é psicóloga e doutora em Psicologia Social pela PUC-SP (2018). Fez a tese sob orientação de Antonio da Costa Ciampa, em cotutela com o Institut für Migrationsforschung und Interkulturelle Studien (IMIS) da Universidade de Osnabrück, e realizou pós-doutorado na PUC-SP (2020–2024). É professora da graduação em Psicologia e do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Saúde da Universidade Metodista de São Paulo (UMESP). Pesquisa os sorveteiros ítalo-brasileiros de Urussanga que trabalham sazonalmente nas sorveterias italianas da Alemanha, numa etnografia multissituada entre o sul de Santa Catarina, a região de Longarone e do Vajont, na Itália, e cidades alemãs. É autora de Vidas em trânsito: sorveteiros ítalo-brasileiros entre Itália, Alemanha e Brasil como (não) lugares (Paco Editorial, 2024).
Stéphanie Mercier é jornalista franco-alemã do Bayerischer Rundfunk (BR), em Munique, onde produz reportagens para televisão, rádio e internet, incluindo o programa Abendschau. Sua investigação sobre os trabalhadores brasileiros das sorveterias italianas na Alemanha a levou de sorveterias alemãs ao sul de Santa Catarina e à Itália. O trabalho resultou numa reportagem publicada em agosto de 2026 na Süddeutsche Zeitung Magazin.
Resumo
Todo mês de março, milhares de brasileiros do sul de Santa Catarina partem para as sorveterias italianas da Alemanha, de onde só voltam em outubro. O circuito tem uma origem improvável. A tragédia do Vajont, que em 1963 destruiu Longarone e matou quase duas mil pessoas, reaproximou sobreviventes e descendentes de emigrados e levou, em 1991, ao acordo de cidades-irmãs entre Longarone, na Itália, e Urussanga, no Brasil. Pouco depois, esse reencontro afetivo se converteu em rota de recrutamento laboral. A engrenagem se sustenta no passaporte italiano obtido pelos descendentes de emigrantes. Esse documento funciona não apenas como reconhecimento do pertencimento a uma italianidade transoceânica, mas também como condição de empregabilidade na Alemanha. Juridicamente europeus, esses trabalhadores vivem como extracomunitários: enfrentam jornadas de doze horas, moradias que se confundem com o próprio emprego e uma fiscalização quase inexistente de suas condições. Os sonhos e o cálculo econômico costumam fechar, com a casa, o carro e a ascensão material, mas o cálculo biográfico e emocional não. Permanece uma liminaridade sem data de encerramento, cujos custos psíquicos atingem quem parte e quem fica, como os chamados “órfãos de Urussanga”, crianças criadas por avós e vizinhos.
Nesta sessão, que conta com o apoio do projeto “Ancestral Citizenship in Europe”, cruzam-se a etnografia de Diane Portugueis, que apresenta aqui o livro Vidas em trânsito, e a investigação jornalística de Stéphanie Mercier. Com elas, discutiremos a cidadania por ascendência como recurso desigualmente distribuído, mediado por um mercado de consultorias e tensionado pelo endurecimento da lei italiana de 2025. E nos perguntaremos o que a pesquisa acadêmica e o jornalismo investigativo podem fazer um pelo outro para dar visibilidade a fenômenos migratórios que permaneceram, por décadas, sem nome e sem número.
